O que renovar quando o programa de consciencialização faz dois anos

Ilustración plana del camarín de un teatro, con una persona de espaldas frente a un perchero de cinco abrigos de colores y estilos distintos, sosteniendo en la mano el mismo libreto anillado mientras elige cuál ponerse

O que renovar quando o programa de consciencialização faz dois anos

O que renovar quando o programa de consciencialização faz dois anos

Doctor Who está no ar há mais de seis décadas e continua a ser a mesma série. Conseguiu-o graças a uma saída de emergência. Em 1966 William Hartnell, o ator que fazia de protagonista, estava doente e não podia continuar, por isso os argumentistas resolveram que a personagem se transformaria em câmara noutra pessoa. Patrick Troughton apareceu assim, já perto do fim de The Tenth Planet, e no ecrã aquilo ainda não se chamava regeneração. Chamava-se renovação.

A premissa nunca foi tocada. Mudou a cara.

Um programa de consciencialização chega ao segundo ano com esse mesmo problema e sem esse mesmo plano. O conteúdo continua bom, a plataforma responde, o calendário está montado. E as pessoas abrem menos do que há doze meses, e quando abrem ficam menos tempo. O que se gastou foi a embalagem.

Convém situar de que organizações estamos a falar. Entre as grandes empresas do Reino Unido, 84% fizeram alguma atividade de formação ou sensibilização nos últimos doze meses, contra 76% no ano anterior, segundo o Cyber Security Breaches Survey 2025/2026 do governo britânico. No total das empresas o número está parado nos 19% há dois anos. Onde o programa já está instalado, a pergunta interessante deixou de ser como arrancar e passou a ser como renovar um programa de consciencialização que já deu a volta toda.

O que muda quando um programa de consciencialização faz dois anos?

Um programa entra no segundo ano quando a organização já reconhece o formato, o remetente e o tipo de pedido antes de abrir. A partir daí a novidade deixa de trabalhar de graça, e tudo o que sustenta a participação tem de ser colocado de propósito.

O primeiro ano tem uma vantagem que nunca aparece declarada no relatório. Tudo era a primeira vez. A primeira simulação, o primeiro jogo, o primeiro vídeo que não parecia um vídeo institucional. A atenção chegou sozinha porque o material era desconhecido, e isso tapou qualquer decisão fraca de desenho que tenhamos tomado pelo caminho.

O segundo ano destapa essas decisões. Aquilo que aprendemos a reconhecer, arquivamos. Chega a mensagem com o mesmo assunto, do mesmo remetente e com a mesma estética, e a pessoa sabe o que vai encontrar lá dentro antes de a abrir. Continua a completar, porque lhe aparece na lista de tarefas. Deixa de olhar.

Esse ponto pesa mais do que parece. No primeiro ano a organização ainda está a testar se o programa lhe serve. No segundo decide, sem o votar em reunião nenhuma, se isto passa a fazer parte de como se trabalha ou se é mais uma tarefa administrativa. E decide-o pelo que vê chegar à caixa de entrada, muito antes de alguém apresentar um relatório.

A fadiga de segurança descreve algo mais fundo, o desgaste de quem recebe avisos a toda a hora até deixar de lhes responder. Aqui o assunto é bastante mais doméstico e tem solução conhecida. É preciso mudar a forma.

Como se percebe que a participação está a cair?

A participação cai primeiro na profundidade e bastante depois no volume. Por isso a percentagem de conclusão é a última a saber (e costuma ser a única que olhamos).

Quatro sinais que avisam a tempo:

  • O tempo dentro do conteúdo encurta abaixo do que esse conteúdo precisa. Uma peça pensada para cinco minutos é completada em dois.
  • As perguntas desaparecem. No ano passado alguém escrevia para discutir um caso ou para contar o seu. Agora não escreve ninguém, e o silêncio lê-se como acordo.
  • Os reportes voluntários descem e os cliques mantêm-se. Menos avisos com o mesmo nível de exposição significa que há gente que deixou de avisar.
  • Respondem sempre as mesmas áreas. A média geral aguenta-se porque três equipas entusiasmadas compensam cinco que se foram apagando em silêncio.

Nenhum desses quatro aparece no painel de conclusão. Aparecem todos ao olhar para o trimestre inteiro, e é aí que o segundo ano esconde uma armadilha extra. O primeiro ano deixa números inflacionados pela novidade, e tomá-los como linha de base transforma qualquer resultado normal numa queda. Compensa mais comparar com o trimestre equivalente do ano anterior e olhar para a forma da curva dentro de cada campanha, desde o envio até à última pessoa que respondeu.

O que convém renovar e o que convém deixar quieto?

Renovar um programa de consciencialização é mudar a embalagem mantendo o recado intacto. Quando na renovação se mexe em tudo, o ano seguinte arranca do zero outra vez.

O que roda:

  • O formato. Se o primeiro ano viveu de módulos e newsletters, o segundo entra por banda desenhada, vídeo ou jogo. Cada formato pede uma atenção diferente e chega a pessoas diferentes.
  • A voz. Quem assina a comunicação muda a forma como é lida. Pode assiná-la a equipa de segurança, pode assiná-la a área de pessoas, ou pode fazê-lo alguém de referência da própria equipa que conte algo que lhe aconteceu mesmo.
  • O pedido. Um ano pedimos para olhar. No seguinte pedimos para responder, reportar ou decidir. Um pedido novo acorda mais do que um conteúdo novo.
  • O cenário. O mesmo risco levado ao contexto real de cada área torna-se outra peça sem mexer uma vírgula na mensagem.

O que fica quieto:

  • A mensagem central. Se todos os anos muda aquilo que pedimos para entender, a organização nunca acaba de o aprender.
  • A régua de medição. Mexer nos indicadores na mesma época em que rodamos formatos deixa o ano impossível de comparar com o do ano passado.
  • A cadência. O ritmo é a única coisa que as pessoas absorvem sem dar por isso, e parti-lo custa mais do que rende.

As duas listas separam-se pelo material de que é feita cada coisa. A embalagem é forma e gasta-se com o uso. A mensagem e a régua de medição são a parte que dá continuidade ao programa, e estragam-se se lhes mexermos em cada época.

Rodar não obriga a produzir tudo outra vez. Na SMARTFENSE o catálogo de ferramentas de sensibilização e avaliação reúne banda desenhada, vídeo, videojogos, módulos interativos e newsletters, por isso no segundo ano basta escolher outro formato em vez de escrever do zero. Os conteúdos ajustados a cada organização cobrem o resto, que é o cenário onde acontece o caso.

Ilustração plana de um organizador de parede com quatro compartimentos em fila, três ocupados por uma banda desenhada, uma bobina de filme e um dado, e uma mão a colocar um envelope no quarto

Como se monta um calendário de rotação para o segundo ano?

Um calendário de rotação é a lista de que formato entra em cada troço do ano, decidida de antemão, para que nenhuma escolha fique entregue à urgência da semana.

Bastam quatro passos:

  1. Anota o que já foi usado. Há que registar o formato, o remetente e o tema de cada envio do primeiro ano. Essa lista é a das peças que por agora convém deixar descansar.
  2. Escolhe três formatos principais para o ano e distribui um por trimestre. Três chegam, e deixam margem para fazer bem cada um.
  3. Deixa um reforço curto pelo meio. Aí repetir formato compensa mesmo, porque a microaprendizagem trabalha por repetição e dura dois minutos.
  4. Reserva uma data para algo que não se pareça com nada do ano anterior. Uma ronda de jogo com pontuação partilhada, uma peça feita com gente da casa, o que sirva para partir o padrão uma vez por ano.

O calendário de campanhas serve para deixar os quatro passos agendados de uma só vez, com os grupos e as datas postas antes de o trimestre começar. Depois o ano corre sozinho, que é a única forma de a rotação sobreviver a março.

O que não resolve uma queda de participação?

  • Subir a frequência. Mais envios do mesmo tipo aceleram o desgaste que estamos a tentar travar.
  • Endurecer o tom. O medo levanta a abertura uma vez e deixa as pessoas a desviar-se do remetente durante os meses seguintes.
  • Torná-lo obrigatório. Consegue-se o cumprimento e perde-se a atenção. Uma pessoa obrigada completa o módulo (com o mesmo entusiasmo com que se renova o cartão de cidadão) e leva apenas o necessário para passar.
  • Produzir uma peça mais elaborada. Dentro da mesma embalagem de sempre é aberta na mesma pouco, e custa o triplo.
  • Alongar o conteúdo. Duplicar a duração para aproveitar o envio é a maneira mais rápida de a peça seguinte ser aberta menos.

O que mexe mesmo o ponteiro é mais aborrecido de explicar num comité e mais barato de executar. Trata-se de mudar a cara do programa, manter o que já sabemos que funciona e deixar que o conteúdo volte a parecer novo por uns tempos.

Quando se chamava renovação

Aquela série sobreviveu porque alguém encontrou, num momento difícil, a forma de mudar a cara sem tocar na história.

Um programa de consciencialização no segundo ano precisa dessa decisão e de pouco mais. Se queres começar por algo concreto, abre o calendário do ano passado e marca os envios que saíram com o mesmo formato e o mesmo remetente. Esse é o bloco a renovar primeiro. A mensagem aguenta mais um ano inteiro; a cara está a pedir rendição.

Carolina Carmelé

Creadora de contenidos con amplia experiencia en ciberseguridad, tecnología de la información y concienciación en seguridad. Desarrolla y gestiona materiales educativos claros, atractivos y eficaces, utilizando formatos creativos para conectar con audiencias diversas.

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